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Platão e o nerd

No começo da revolta judaica no primeiro século de nossa era, boa parte da ira dos judeus foi gerada pela insistência dos romanos em colocar uma estátua de Calígula em seu templo em Jerusalém em troca da colocação de uma estátua do deus judeu Yahweh nos templos romanos. Os romanos não perceberam que o que os judeus (e os monoteístas levantinos subsequentes) queriam dizer por deus era abstrato, envolvia tudo e não tinha nada a ver com a representação antropomórfica e excessivamente humana que os romanos tinham em mente quando diziam deus. Criticamente, o deus judeu não se prestava a representações simbólicas. Da mesma forma, o que muitas pessoas rotulam e ao que atribuem valor como sendo “desconhecido”, “improvável” ou “incerto” não representa a mesma coisa para mim — não é uma categoria precisa do conhecimento, uma área nerdificada, e sim o oposto disso: é a ausência (e limitações) do conhecimento. É o contrário exato do conhecimento; dever-se-ia aprender a se evitar usar termos feitos para o conhecimento a fim de descrever seu oposto.

O que chamo de platonismo, em função das ideias (e da personalidade) do filósofo Platão, é nossa tendência a confundirmos o mapa com o território, a concentrarmo-nos em “formas” puras e bem definidas, sejam elas objetos, como triângulos, ou noções sociais, como utopias (sociedades construídas a partir de um plano do que “faz sentido”), até mesmo nacionalidades. Quando essas ideias e constructos concisos habitam nossas mentes, damos prioridade a eles em face de outros objetos menos elegantes, aqueles que possuem estruturas mais confusas e menos tratáveis (ideia que elaborarei progressivamente ao longo do livro).

O platonismo é o que faz com que achemos que compreendemos mais do que realmente compreendemos. Mas isso não acontece em todas as partes. Não estou dizendo que formas platônicas não existam. Modelos e construções, os mapas intelectuais da realidade, não estão sempre errados; estão errados somente em algumas aplicações específicas. A dificuldade é que a) você não sabe de antemão (somente depois do ocorrido) onde o mapa estará errado e b) os erros podem ter consequências graves. Os modelos são como remédios potencialmente úteis que carregam efeitos colaterais aleatórios, porém muito graves. A dobra platônica é a fronteira explosiva onde a mente platônica entra em contato com a realidade confusa, onde o vão entre o que sabe e o que acha que sabe torna-se perigosamente amplo. É aqui que o Cisne Negro é gerado.

Nassim Nicholas Taleb - O Cisne Negro (2007)

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